Faça por merecer (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

Uma das cenas de guerra mais marcantes da filmografia contemporânea foi representada pelo ator Tom Hanks ao incorporar o capitão John Miller na obra “O RESGATE DO SOLDADO RYAN”.

O último filho vivo da família Ryan, combatendo na França após o desembarque na Normandia, precisava ser poupado.

Tendo recebido a tarefa, o capitão Miller reúne um grupo de sete homens e segue para a linha de frente a fim de cumprir a missão.

Ao longo das jornadas, a patrulha se depara com emboscadas, famílias desesperadas, alemães ainda prontos a matar para não morrer.

Os soldados vão ficando pelo caminho. Quando Ryan é encontrado, Miller é atingido de morte. Sabendo que o fim se aproxima, sussurra ao ouvido de Ryan: faça por merecer.

Assistir à epopeia renova a fé na importância de passar pela vida e deixar uma semente. Não importa se esta semente é de tâmara, uma árvore que leva anos para que o fruto possa ser apreciado. Plante-a.

O soldado Ryan fez por merecer. Ao final do filme, no Cemitério Militar da Normandia, diante da sepultura do capitão Miller, o velho paraquedista se apresenta com o relatório de sua vida. “Capitão, eu creio que fiz por merecer, missão cumprida.”

A sociedade e suas lideranças precisam fazer por merecer. Precisam assumir suas tarefas e persegui-las até sua concretização. Precisam vencer o mal que subsiste nos ambientes conflagrados do século 21.  Precisam fazer valer a verdade sobre a hipocrisia da mentira montada por tijolos da insensatez e sanha pelo poder.

No campo da realidade palpável, um exemplo desse mundo distópico foi-nos revelado ontem (21.9.21) nos discursos proferidos por ocasião da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Líder a líder, todos subiram ao palco e do púlpito discursaram tão somente para os seus. Quantos foram convencidos? Quantos pela retórica daqueles próceres – treinados para leitura em teleprompter de textos pautados na sugestão de seguidores – mudaram de opinião? Poucos, nenhum.

O discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, teve o dom de iluminar os desafios globais e propor estímulos aos países assentados naquele organismo.

Estímulos, pois ações exigem vontade de agir, que não é tempero fácil de ser agregado aos projetos de governos com interesses fricativos políticos e pessoais.

Meio ambiente, clima, fome, desigualdade social, migração, pandemia, vacina, guerras foram temas tratados por Guterres. Em cada um deles, há pontos de vista distintos a se observar.

A agenda mundial carece de uma discussão ampla e desarmada na tentativa de colimar os interesses nacionais aos interesses nacionais dos outros.

É ingênuo acreditar na possibilidade de entendimento quando algumas lideranças de países importantes não o veem como solução.

A confrontação Globalismo versus Nacionalismo emergiu em força. Quiçá, como cortina de fumaça para toldar as frustrações pós-guerra fria, fim da história e, recentemente, a reacomodação da balança geopolítica do poder mundial.

Os atuais “príncipes” precisam incorporar o figurino da boa liderança, apresentando suas soluções aos desafios vigentes. Não se espera atitudes arrogantes e amadoras como remédio a problemas profissionais.

É mandatório, entretanto, que a comunicação dessa liderança se faça de forma genuína, sobre o suporte da verdade, não da desinformação. Ao escutar a fala do chefe de governo brasileiro, pairaram dúvidas sobre a intenção e oportunidade do discurso. Não reflete a realidade, é o que se comenta em vários fóruns da sociedade.

Pareceu a confirmação de que a tribuna da ONU foi mero ambiente para enviar recados para o quintal da casa em algaravia permanente. Sejamos justos, ele não foi uma exceção. Outros a usaram de igual forma.

O mundo já se apercebeu desencaixado do espírito proposto pela carta das Nações Unidas. Aqueles valores ficaram ao costado nos velhos caminhos. Que fazer? Aceitar a perda da liberdade entre indivíduos, a nome de resultados duvidosos?

É hora de meditar. Validar narrativas. Amorfo emocionalmente, o sujeito não se inquire sobre o que ocorre à sua volta. Incorporado à massa, cria uma sensação de ser isento de responsabilidade. Bloqueia o seu grilo falante – a voz da consciência – e faz o que todo mundo faz.

É preciso fazer mais. Muito mais. “Ler e agir” para suplantar o mal, como assevera a professora Heloisa Starling na conclusão da biografia de Hanna Arendt, escrita por Ann Heberlein.

Se o que se busca é paz e harmonia para a colheita de boas tâmaras pela sociedade, os beneficiados, todos nós, precisam fazer por merecer. Regar, arrancar ervas daninhas e podar até que flores e frutos se fortaleçam sozinhos.

Paz e bem!

 

Otávio Santana do Rêgo Barros. General de Divisão R1

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