Aukus: a nova geopolítica no periscópio (por Marcos Magalhães)

Aos olhos de Washington, faz todo o sentido a nova parceria estratégica firmada com o Reino Unido e a Austrália, para equipar a Marinha australiana com submarinos de propulsão nuclear. Afinal, os equipamentos militares estarão dedicados ao que parece ser o principal objetivo atual da política externa americana: a contenção da China.

Mesmo que o preço a pagar seja – como de fato foi – um enorme descontentamento da França, uma também importante aliada na Europa Continental.

A nova parceria, que ganhou o nome de Aukus, levará ao rompimento de um acordo firmado em 2016 por Paris e Canberra para a construção em Cherbourg de 12 submarinos convencionais para a Marinha australiana, no valor de US$ 65 bilhões.

O governo francês disse ter sido informado poucas horas antes do anúncio do acordo firmado por Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Imediatamente convocou de volta a Paris seus embaixadores em Washington e Canberra. E cancelou um encontro de cúpula franco-britânico de ministros da Defesa previsto para ocorrer nesta semana.

Em outro movimento, Paris tenta bloquear as negociações entre a Austrália e a União Europeia para um acordo de livre comércio. As negociações, lançadas em 2018, envolvem a remoção de barreiras a exportações e o tema dos direitos de propriedade intelectual. No ano passado, o comércio entre as duas partes alcançou US$ 42 bilhões.

Na melhor das hipóteses, os movimentos políticos e econômicos da França levarão a alguma compensação pela perda do contrato com a Austrália. O presidente Joe Biden já pediu uma conversa com seu colega Emmanuel Macron, para tentar dissipar o clima de insatisfação.

As palavras de Biden podem soar como consolo, mas também podem vir a ser interpretadas, na Europa, como uma decepção depois de o presidente americano haver prometido uma nova aliança atlântica logo após a sua posse.

Em entrevista à televisão francesa, o ministro da Europa e dos Assuntos Estrangeiros, Jean Yves Le Drian, acusou a Austrália de haver traído a relação de confiança entre os dois países. “E me preocupa o comportamento dos Estados Unidos”, acrescentou. “Essa decisão unilateral, brutal e imprevisível parece muito ao que fazia o presidente Trump”.

Londres

Se a notícia do acordo foi recebida com “amargor” em Paris, nas palavras do ministro Le Drian, ela foi celebrada em Londres. Afinal, ela serve como uma luva para o projeto de uma Global Britain, anunciado pelo ministro Boris Johnsson após o divórcio com a União Europeia. Ou seja, a velha Grã-Bretanha estaria de volta às grandes decisões mundiais.

A imprensa inglesa também elogiou o acordo. Em artigo publicado no Financial Times, o articulista Gideon Rachman observa que o Aukus foi bem recebido por países da região, preocupados com a expansão militar chinesa no Mar do Sul da China. E teria também agradado ao Japão e à Índia, parceiros de Estados Unidos e Austrália no chamado Quad.

“A resposta otimista na região vai ser muito mais importante para Washington do que a raiva em Paris”, escreveu Rachman. “Conter a energia e as ambições da China é agora a mais importante estratégia dos Estados Unidos, em um movimento que une as administrações de Trump e Biden”.

Em outras palavras, o novo acordo – ainda que afete os interesses de um antigo aliado europeu – foi recebido como uma resposta às crescentes percepções de uma ameaça chinesa na região do Indo-Pacífico.

Os submarinos a propulsão nuclear que serão fornecidos à Austrália são rápidos, silenciosos e terão grande alcance. Os reatores americanos que os moverão usam urânio altamente enriquecido, o que permitirá à Austrália obter acesso a essa tecnologia ao longo do tempo. Ou seja, aos aliados mais próximos as regras de não-proliferação podem ser um pouco mais flexíveis.

Elefante branco

Esta é uma postura bem diferente da adotada pelo governo americano em relação ao Brasil. Em 2010, soube-se por meio de um vazamento do Wikileaks que o então embaixador dos Estados Unidos Clifford Sobel havia chamado de “elefante branco” o projeto do submarino nuclear brasileiro.

Em telegrama enviado a Washington, Sobel afirmou que, embora não existam ameaças às reservas do pré-sal, “líderes brasileiros e a mídia” teriam citado “as descobertas de petróleo no mar como razão urgente para melhorar a segurança marítima” e para estimular a pesquisa do que chamou de “pequeno reator para propulsão naval”.

Esse “pequeno reator” tem sido desenvolvido há quase três décadas pela Marinha brasileira, no Centro Experimental de Aramar. E ele deverá mover, a partir de 2033, um submarino que começa a ser construído provavelmente no fim de 2022 em Itaguaí, no Rio de Janeiro.

Esta será a mais importante etapa de um projeto de cooperação com a mesma França que se preparava para fornecer submarinos à Austrália. O projeto brasileiro é mais modesto: inclui quatro submarinos convencionais, com transferência de tecnologia francesa, e um submarino de propulsão nuclear.

O motor do submarino nuclear não faz parte do acordo com os franceses. Sua tecnologia – que também poderá vir a equipar usinas de produção de energia elétrica – tem sido desenvolvida ao longo dessas três décadas pela Marinha.

Se tudo der certo, em 11 anos o Brasil poderá vir a integrar o pequeno grupo de países que contam com submarinos de propulsão nuclear. Vale a pena? Há argumentos favoráveis e contrários. O investimento certamente é alto. E o petróleo do pré-sal, na década de 2030, já não será assim tão estratégico em um mundo que busca atenuar os riscos da mudança climática.

De qualquer forma, e mesmo que estejam em alta fontes de energia renovável como a solar e a eólica, o Brasil poderá obter os frutos do domínio do ciclo nuclear. Disporá de meios para ampliar a oferta de energia elétrica e de um submarino capaz de permanecer longas jornadas submerso no Atlântico Sul, por onde trafegam 95% do comércio exterior do país.

Alianças

O lançamento da nova parceria entre Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália mostra que as atenções de Washington estarão cada vez mais voltadas à região do Indo-Pacífico – e, especificamente, à contenção do que veem como expansão chinesa.

O Atlântico Sul está do outro lado do mundo. E o Brasil, que tem desenvolvido há décadas seu “pequeno reator”, também está bem longe do cenário onde se desenvolverão os próximos passos da grande disputa de poder mundial.

As manchetes estarão do outro lado do planeta. Mas curiosamente a criação do Aukus coloca em destaque a permanência da cooperação na produção de submarinos entre o Brasil – principal economia do Mercosul – e a França, um dos dois principais atores da União Europeia.

As relações de confiança no campo militar, que teriam sido traídas pela Austrália, por aqui permanecem intactas. Por outro lado, a França promete, em resposta ao Aukus, atrasar as negociações de um acordo de livre comércio entre a União Europeia e a Austrália. E por aqui?

Por aqui também a própria França retarda a celebração do acordo de livre comércio com o Mercosul. Mas por outros motivos. O problema, aqui, está na mudança de postura do Brasil em relação à defesa da Amazônia, após a posse de Jair Bolsonaro. O aumento dos desmatamentos e das queimadas tornou inviável a assinatura do acordo negociado por 20 anos.

Quando o governo brasileiro adotar uma nova postura em relação ao meio ambiente, estará aberto o caminho não só para a assinatura do acordo, como também para uma relação mais ampla entre a América do Sul e a Europa Continental.

As duas regiões, afastadas da grande disputa geopolítica entre as principais potências mundiais, podem ter muito a ganhar com a aproximação – em termos militares, econômicos e políticos.

Em recente entrevista à Deutsche Welle, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica apontou esse caminho. Ele sugeriu que a Europa – em um mundo tomado pela rivalidade entre China e Estados Unidos – se movimente em direção a uma “comunidade atlântica” com o Mercosul.

O ex-presidente admitiu o valor “incomensurável” da defesa da Floresta Amazônica e também acusou a “péssima conduta” do governo atual brasileiro em relação ao tema, mas pediu que a Europa use seu peso para estimular mudanças nessa política.

“Muitos de nossos países têm uma formação muito ligada à história do Mediterrâneo”, recordou Mujica. “Por que a Europa se resigna a ficar encurralada em um momento em que as alianças e os acordos para criar gigantescas unidades parecem um sinal inevitável dos tempos que virão?”, questionou.

Em sua opinião, os pais da integração europeia, Konrad Adenauer e Charles de Gaulle, eram “geopoliticamente lúcidos” e não teriam uma “visão tão limitada” quanto a dos atuais líderes europeus. Pode ser. Mas visão estratégica também anda em falta do lado de cá do Atlântico.

 

Marcos Magalhães escreve no Capital Político. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.

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