Bióloga que fez tratamento contra depressão diz que não imagina como passaria pela pandemia sem terapia


Thais Xavier de Melo começou a se sentir mal depois da mudança de estado por causa do trabalho e então começou a atravessar um processo doloroso para vender a doença. Thais Xavier de Melo enfrentou uma depressão e conta os desafios percorridos
TVCA/Reprodução
A mudança da Paraíba para Mato Grosso trouxe reflexos profundos na vida da bióloga Thais Xavier de Melo. Ela entrou em depressão e passou a ter crise de ansiedade.
(Thais é uma das personagens entrevistadas pela jornalista Lorena Segala para a série “Um outro olhar: saúde mental na pandemia”, que será exibida na próxima semana no Bom Dia Mato Grosso.)
Ela morava em João Pessoa, na Paraíba, e, em 2016, se mudou para Rondonópolis por causa da profissão. Após alguns meses, começou a se sentir frustrada porque o trabalho não estava sendo como o esperado.
Durante a pandemia da Covid-19, ela continuou fazendo terapia. Ela avalia que não conseguiria entender o impacto causado nas pessoas se não estivesse fazendo tratamento psicológico.
“Não sei como eu estaria se não fosse a terapia porque é difícil a gente ter que lidar com isso. As notícias são sempre muito rápidas e a terapia vem justamente para ajudar a respirar e a entender que a gente precisa viver esse momento agora. Não tem como não estar vulnerável com tudo o que está acontecendo, não tem como a gente se isolar totalmente de todas as notícias”, disse.
Thais se mudou para Rondonópolis em 2016 e tentou lidar com a frustração no trabalho de várias formas, mas cada dia que passava a situação foi piorando.
“Era como se não fizesse sentido tudo aquilo que eu estava vivendo e meu marido começou a perceber que eu estava muito triste. Sempre fui uma pessoa muito alegre, descontraída, engraçada que fazia piadas, e de repente eu não estava mais assim”, disse.
Em 2017, ela decidiu procurar a ajuda de um psiquiatra por insistência do marido, mas não conseguiu continuar o tratamento e buscou uma psicóloga para fazer terapia. Passou um ano tentando se adaptar até ter a primeira crise de ansiedade.
“Eu recebi uma notícia do trabalho e comecei a chorar, eu não respirava, era uma respiração muito forte e acelerada e eu só pensava que não queria passar por aquilo. Eu ia trabalhar chorando e voltava para casa chorando porque eu não me sentia útil ou que eu não fazia parte daquilo e isso me consumia muito”, contou.
Após a primeira crise, Thais tentou conversar com a chefe dela e contar o que estava acontecendo. Depois da conversa, ela foi transferida de setor, mas a situação não mudou e resolveu procurar outro psiquiatra.
Naquele momento, ela estava cursando doutorado de forma remota e, com isso, não conseguia ir à universidade, o que a deixava ainda mais frustrada.
Na primeira consulta, a nova psiquiatra receitou uma medicação para dar início ao tratamento e Thais tentou argumentar, já que tinha muito receio em relação aos remédios.
“Ela passou medicação e era algo que eu tinha muito receio. Até tentei argumentar, mas ela olhou para mim e falou que eu estava doente. Aquilo pesou muito porque é difícil admitir, eu fazia tudo normal, mas a minha cabeça estava doente. Quando a médica me falou isso, eu saí do consultório, sentei no meu carro e comecei a chorar”, disse.
A bióloga não conseguia arrumar a casa, lavar a louça, cuidar da gata de estimação e fazer tarefas básicas. Ela foi afastada do trabalho em 2018 e em dezembro do mesmo ano tentou ser transferida novamente, mas não conseguiu.
“Em dezembro de 2018 foi a primeira vez que passaram pensamentos pela minha cabeça de que eu não queria mais existir. Nesse dia eu lembro que era um sábado e liguei para o meu marido e falei que não estava passando coisas legais pela minha cabeça”, contou.
O marido dela então pediu afastamento do trabalho, em João Pessoa, e foi para Rondonópolis para passar um tempo com ela. As crises foram ficando piores e a psiquiatra decidiu colocar a bióloga em internação domiciliar porque ela não conseguia ficar sozinha.
Pouco tempo depois, ele voltou para João Pessoa e ficou sozinha novamente. Em fevereiro de 2019, Thais teve uma crise de ansiedade e decidiu sair de casa. Por volta de 22h, ela ligou para o marido e explicou que não queria mais ficar lá.
“Ele começou a chorar pedindo para eu voltar para casa e eu ficava dizendo que queria que isso tudo acabasse. Naquele momento eu queria que um carro batesse em mim porque eu não ia ter coragem de tirar a minha própria vida naquela situação, mas se um carro batesse em mim não seria culpa minha. Eu pensava na minha família, mas naquela hora nada fazia sentido e eu consegui voltar pra casa eu dormir”, contou.
No outro dia, o marido de Thais chegou em Rondonópolis e esse já era o terceiro afastamento que ele pedia para tentar ajudá-la.
Ela contou que no momento em que começou a perceber o quanto o marido dela estava cansado.
“Dessa vez que eu vi o quão cansado ele estava, caiu a ficha e pensei que ninguém iria resolver o meu problema. Se eu quisesse melhorar teria que ser por mim, mas era tanta coisa passando pela minha cabeça de que nada daria certo e eu só queria fazer meu melhor, mas quando eu vi o cansaço dele, vi que tinha que através de mim e esse processo foi muito difícil”, contou.
Thais então decidiu fazer yoga, conseguiu ser transferida para outra cidade com novas perspectivas e outras expectativas. Com a continuidade do tratamento, a bióloga conseguiu melhorar e entender as frustrações que tinha.
Psiquiatra explica sobre saúde mental e alerta na pandemia
Saúde mental
O médico Daniel Martins de Barros, especialista em psiquiatria, explica que o Brasil sempre teve alto índice de doenças mentais e que na pandemia as pessoas começaram a dar mais atenção a isso. O país ocupa o 1º lugar no ranking de pessoas ansiosas, segundo ele.
“O Brasil já era um dos campeões em transtornos mentais. A gente ocupava o 1º lugar do ranking e pais mais ansioso do mundo e entre os 10 primeiros com maior número de casos de depressão, isso já antes da pandemia”, afirmou.
Ele avalia que os principais fatores, provavelmente, são insegurança econômica, falta de acesso à saúde, dificuldades de tratamento e baixo nível educacional. “É um conjunto de fatores e na pandemia, embora muitos estudos no mundo todo, não mostrem a proporção de pessoas doentes, o que a gente tem visto é que mais pessoas estão atentas a isso. Obviamente, mais pessoas estão sofrendo, e o sofrimento é um motivo para a pessoa falar ‘agora eu não suporto mais’”, pontuou.
Psiquiatra fala sobre crise de ansiedade
Ansiedade
O psiquiatra Jairo Bouer disse que, quando a ansiedade é tamanha, a pessoa fica paralisada a ponto de não conseguir resolver as situações e nesse momento é preciso procurar ajuda médica.
“Um pouco de ansiedade faz parte da vida de todos nós. A questão é que, quando essa ansiedade toma uma dimensão muito grande, em vez de nos mover e fazer nós sairmos do lugar para resolver as nossas dificuldades, ela acaba nos paralisando e deixando a gente prisioneiro de si mesmo”, afirma.
O especialista explica que os transtornos de ansiedade mais comuns são: a síndrome do pânico em que a pessoa tem ataques agudos de ansiedade; o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) que são comportamentos, obsessão e pensamento – quando a pessoa precisa ter algum tipo de comportamento repetitivo para aliviar o sofrimento -; Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG); Síndrome de Estresse Pós-traumático e fobias.
A depressão faz parte do grupo chamado de transtornos do humor. “O humor varia em todos nós, há dias melhores e piores só que algumas pessoas têm essas oscilações mais amplas, muitas vezes, ficam em um patamar muito inferior que não é considerado normal e fica abaixo dessa linha por muito tempo”, disse o psiquiatra.
Os sintomas da depressão são tristeza, desânimo, falta de energia, falta de motivação, falta de prazer, crises de choro, irregularidade de sono, ausência de apetita ou excesso de apetite, irritabilidade, impulsividade e isso pode paralisar totalmente a vida da pessoa.
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