Copom não surpreende mesmo com choques persistentes na inflação, dizem analistas


Comitê elevou a taxa básica de juros para 6,25% ao ano nesta quarta-feira (22) e sinalizou que deve realizar o mesmo movimento em outubro. Inflação no próximo ano deve ficar acima do esperado e, com isso, Banco Central tende a subir mais os juros, freando a economia
Antônio Cruz/Agência Brasil
Para economistas ouvidos pelo g1, o aumento de 1 ponto percentual na taxa básica de juros, anunciado nesta quarta-feira (22) pelo Comitê de Política Monetária (Copom), não trouxe grande surpresa. A Selic passa para 6,25% ao ano, maior patamar desde julho de 2019.
Além de um aumento esperado, o Copom sinalizou uma nova elevação no mesmo patamar na próxima reunião, em 27 de outubro. Para os diretores, essa tendência é a certa para que a inflação retorne às metas depois de 2021.
BC aumenta taxa básica de juros para 6,25% ao ano
Selic a 6,25%: veja como fica a rentabilidade da poupança e de outros investimentos
Neste ano, a meta de inflação foi abandonada. A projeção do Copom é de 8,3%, enquanto o teto é de 5,25%.
“O Copom considera que, no atual estágio do ciclo de elevação de juros, esse ritmo de ajuste é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante e, simultaneamente, permitir que o Comitê obtenha mais informações sobre o estado da economia e o grau de persistência dos choques”, diz a nota.
Na carta, o Copom indica como riscos possíveis para a economia brasileiro um efeito de desaceleração de economias asiáticas, em especial a China, por conta da ação da variante delta da Covid-19, e de continuidade das “surpresas inflacionárias recentes” nos países em desenvolvimento.
A visão geral, contudo, não sofreu mudanças. O comitê indica que dados de atividade econômica seguem curso de recuperação e com visão positiva para o restante do ano.
“A divulgação do PIB do segundo trimestre, assim como os indicadores mais recentes, continua mostrando evolução positiva e não enseja mudança relevante para o cenário prospectivo”, diz o Copom.
O Comitê diz ainda que, nos países desenvolvidos, os estímulos monetários e a reabertura das principais economias “ainda sustentam um ambiente favorável para países emergentes” e uma melhora é esperada para o segundo semestre.
Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira
Consistência
Segundo Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual digital, o Copom mostrou consistência e credibilidade neste mês ao afirmar que vai adotar uma postura mais contracionista. Ou seja, vai desincentivar o crédito.
“Mesmo com o aperto nos juros, não será possível colocar a inflação dentro da meta esse ano. 2021 já foi perdido. O horizonte agora é 2022 e 2023”, analisou Frasson.
Na avaliação do economista, alguns pontos já pesam contra a redução das expectativas de inflação de 2022, entre eles a retirada dos estímulos monetários nos EUA, a criação de uma nova bandeira tarifária para a energia elétrica e o atual ambiente político e fiscal, que mantém o real depreciado.
André Perfeito, economista-chefe da Necton, concorda com Frasson e acrescenta que a demora para aprovação de reformas estruturais indica ao mercado que o Brasil não se esforça para atingir a meta fiscal.
Previsão de inflação para este ano já está acima de 8%, diz Banco Central
Inflação
Para Rodolfo Margato, economista da XP, o comitê deu alguns indicativos importantes de que está cauteloso com o cenário de inflação. O primeiro e principal é a expectativa de IPCA para 2022 acima da meta de inflação.
“Nossa interpretação é de que isso é uma sinalização de aumento da Selic a um patamar mais próximo do previsto pelo boletim Focus, de 8,5% em 2022”, diz o economista.
O Copom indica preocupação com a alta nos preços dos bens industriais — “ainda não arrefeceu e deve persistir no curto prazo” — e que persistem os problemas nos preços de alimentos, combustíveis e energia elétrica.
Margato também chama atenção ao fato de que houve ênfase ao problema de geração de energia, por conta da crise hídrica, e o Copom reforçou o impacto na inflação pela alteração de hipótese de vigência das bandeiras tarifárias.
A previsão dos diretores é de permanência da bandeira especial “escassez hídrica” no final deste ano e de bandeira vermelha patamar 2 nos meses de dezembro de 2022 e 2023.
Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, projetava aumento mais severo da Selic, de 1,25 ponto percentual na reunião desta quarta. Para ele, o Comitê foi mais brando e manteve o padrão das demais reuniões, mas deixou a inflação de 2022 escapar da meta.
“Esperava uma reação mais enérgica, como o Copom vinha mostrando em reuniões pregressas justamente para controlar as expectativas de 2022”, diz o economista.
“Apesar de ainda ser um ritmo elevado, as surpresas foram maiores agora que na reunião anterior. O grau de incerteza segue muito elevado”, afirma.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Os comentários estão desativados.