Casal tira ‘ano sabático’ para viajar o mundo com filho autista: ‘Ele nos inspira a ter o espírito livre’


Desde janeiro, quando a aventura começou, família de Campinas (SP) já esteve em 10 países. Para os pais de Léo, de seis anos, experiência é uma forma de mostrar que pessoas com deficiência devem estar onde desejarem. Família viaja ao redor do mundo em ano sabático com filho de seis anos
O pouco tempo de vida de Leonardo Di Bonifácio Abeleira, se opõe à coleção de lugares que ele conhece. Aos 6 anos, o garoto de Campinas (SP) já foi apresentado a dez países. As viagens ganham ainda mais valor quando se descobre o que há por trás delas. Os pais do menino, que tem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), decidiram tirar um “ano sabático” para descortinar o mundo ao filho.
A aventura começou em janeiro deste ano. Pablo Abeleira, de 39 anos, trabalhava como diretor comercial antes de partir em viagem com a família. Já a esposa dele, Ana Paula di Bonifácio, de 38 anos, atuava como gerente de marketing, mas já havia dado um tempo da profissão anteriormente para se dedicar aos cuidados do filho.
“O Léo nos inspira a ter o espírito livre. Estar em ambientes diferentes com ele é mostrar ao mundo que viver com a diversidade não é um bicho de sete cabeças”, diz a mãe, Ana Paula.
Dentre os lugares visitados pelo trio desde o começo da viagem, estão a África do Sul, Egito, Emirados Árabes e Alemanha. Atualmente, a família está na Turquia.
Léo, de seis anos, com os pais Ana Paula e Pablo no Egito
Ana Paula Di Bonifácio/Arquivo Pessoal
Preparação e rotina pelo mundo
O ano sabático já estava nos planos da família há um tempo. A preparação financeira e emocional começou há três anos. O que não estava previsto, porém, era a pandemia de Covid-19, que quase fez o casal cancelar o sonho.
“Fizemos algumas adaptações. Era muito importante que fosse até este ano, porque vários estudos mostram que o cérebro da criança permanece plástico até os seis anos, ou seja, ela consegue absorver mais informações que vão durar para a vida inteira”, explica o pai.
Por conta da crise sanitária, a família prefere visitar locais ao ar livre e sem aglomerações, mas destaca que não cria compromissos: o foco do ano sabático é a experiência e a convivência entre pais e filho.
“O Léo é muito de ter confiança. Com a gente, o contato é muito mais claro. Nós três vivemos num mundo onde ele tem segurança, e, através do sabático, apresentamos para ele um mundo novo”, diz Pablo.
É essa postura permite que Léo guie o ritmo, os caminhos e o tempo de duração de cada viagem. O olhar do menino para o mundo também orienta a família, que relata que não cria expectativas sobre a experiência, afinal, Léo tem uma visão um pouco diferente do padrão de uma criança típica.
“Quando visitamos um safári na África do Sul, em meio a girafas, elefantes e leões, o que realmente impressionou o Léo foi uma fila de tartarugas pequenas que atravessava a estrada. A gente chorou de rir”, se recorda Ana Paula.
Léo, de seis anos, revela o que mais gostou em safári na África do Sul
Autismo: diagnóstico e luta por inclusão
A chegada do primeiro filho fortaleceu o sonho do casal, que se conheceu durante a faculdade em Campinas, de viajar o mundo. O diagnóstico de autismo, porém, foi um período difícil para a família. “O que demoraríamos dez anos para amadurecer, amadurecemos em seis meses”, conta Ana Paula.
Entenda o que é o autismo
A mãe de Léo começou a suspeitar do transtorno quando o filho tinha sete meses. O bebê, que estava sempre sorridente, parou de responder aos estímulos dos pais. “Além de parar de sorrir de volta para nós, quando falávamos com ele, ele olhava para qualquer outra coisa”, lembra a mulher.
O atraso na coordenação motora também acendeu o alerta dos pais. Eles contam que Léo demorou para começar a engatinhar, sentar sem apoio, bater palmas e apontar objetos. “Hoje parece muito claro, mas na época era sutil. Eram pequenos detalhes”, revela Pablo.
“Nos descobrimos como pessoas depois da vinda do Léo. Abrimos nossa cabeça para o diferente. Não só para o autismo, mas para tudo”, diz o pai.
Léo durante visita à safári na África do Sul.
Ana Paula Abeleira/Arquivo Pessoal
Viajando por vários países, Ana Paula e Pablo compartilham que ainda é difícil encontrar pessoas com deficiência (PCDs) nos espaços públicos, uma vez que eles não foram projetados para recebê-las fisicamente e atendê-las emocionalmente.
“Nós crescemos adultos que não consideramos a diversidade em nossas profissões, nos nossos projetos, nas nossas vidas”, reflete Ana Paula.
Apesar da falta de preparo dos espaços para acolher as pessoas com deficiência, os pais insistem para que Léo não se isole e não viva segregado.
“O meu filho não pode se sentir assim no mundo. Ele não vai ter menos do que é dele por direito. Esta é uma forma de dizer: ‘Mundo, você é muito cruel às vezes com meu filho, mas a gente vai continuar lutando’”, diz Ana Paula.
*sob a supervisão de Bárbara Brambila.
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