Público volta ao estádio em decisão que ignora matriz de risco em Joinville

Sem pandemia, a rampa ficaria cheia, com torcedores dividindo espaço, cantando, recepcionando o time, vendo as bandeiras e faixas da União Tricolor subindo. Nessa época, com o JEC na boa fase que vive, o jogo do próximo sábado (18), contra o Bangu, certamente seria de Arena Joinville cheia.

Estado libera a volta da torcida aos estádios mesmo em estado gravíssimo para a pandemia – Foto: Carlos Junior/Arquivo/ND

Hoje, a capacidade é de 17.515, nas condições ideais, sem restrições e com a arquibancada coberta liberada. Mas, temos restrições e não temos arquibancada coberta disponível. Joinville, especialmente, vive situação delicada. Mais uma vez, continua no nível gravíssimo na matriz de risco da Covid-19, é a cidade com mais mortes, mais casos confirmados, mais casos ativos e poucos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) disponíveis.

A volta do público ao estádio foi uma luta travada por meses. Os clubes, especialmente os menores e aqueles com dificuldades financeiras, como é o caso do JEC, precisam das receitas originadas pela venda de ingressos. Muito ou pouco, essa renda ajuda no fim das contas. E o Estado, finalmente, cedeu. Liberou a torcida a voltar aos estádios na Copa Santa Catarina, definiu as regras e abriu mão de algumas especificidades mais duras, como o percentual e a necessidade obrigatória de teste PCR para quem acessar as arquibancadas.

Após reunião com os clubes na segunda-feira (13), o governo estadual voltou atrás e, ao invés de limitar em 2,5 mil torcedores, independentemente da capacidade do estádio, fixou em 30% de liberação. Com isso, 5.255 torcedores poderão ver o JEC na Arena Joinville na Copa Santa Catarina, competição conquistada pelo time em janeiro deste ano.

Além disso e entre outras exigências, os torcedores terão que apresentar comprovante de ciclo vacinal completo ou testes negativos para a Covid-19 para acessar o estádio, ainda assim, com protocolos que dizem respeito a locais, distanciamento e logística.

A verdadeira “briga” travada pelos times é válida e necessária. Os clubes catarinenses precisam desse dinheiro, precisam de sua torcida e veem, por todo lugar, liberações que começaram antes mesmo de a pandemia ter sido “controlada”.

Em Joinville, comércios lotados, shoppings lotados, bares lotados e até festas acontecem enquanto a cidade continua sendo o epicentro da pandemia, continua tendo o maior número de casos e de casos da variante Delta. Os presidentes dos clubes precisam de uma verdadeira ginástica e do famoso “escolher o que pagar” em uma crise que só aumenta, enquanto parques são flagrados cheios e sem qualquer protocolo de segurança fim de semana após fim de semana.

O erro das flexibilizações resultou diretamente na constante gravidade que vive Joinville e região. Santa Catarina se pinta de laranja e amarelo, diminuindo casos, casos ativos, ocupação hospitalar e a maior cidade do estado continua mergulhada no vermelho.

Desde o início da pandemia, a justificativa para barrar o público era, justamente, a gravidade da situação e a cada tentativa de iniciar as tratativas para a volta da torcida, o estado sacava a carta coringa de “a maioria das regiões está no gravíssimo e, no gravíssimo, não há possibilidade”. Desta vez, parece que o coringa foi invalidado. O vermelho continua aqui, mas não há uma linha sequer na portaria que regulamenta a volta, que trate da matriz de risco, que a leve em consideração.

A volta é importante, até necessária, ao menos para os cofres. A maneira como foi viabilizada é que incomoda. A portaria com as regras foi publicada menos de 48 horas antes do início da competição, tão “em cima da hora” que o Caçador sequer abrirá seus portões justamente porque não teve tempo para se organizar. Publicada às pressas e sem entender as necessidades de cada região. O que valia há um ano parece não importar agora.

O que mudou? A pressão. Apenas. Porque o cenário é ainda pior. Mais mortes, mais casos, a Delta. A vacinação avança? Sim. Mas em Joinville, e ainda é uma equação a ser estudada, os casos não cessam.

O futebol é o vilão da pandemia? Claro que não. O JEC fará uma logística para evitar que o que aconteceu em Minas Gerais se repita aqui? Não tenho dúvidas. Mas, ainda assim, o que me incomoda, particularmente, é a maneira como a torcida foi “liberada”. E o argumento de apontar a liberação de outras atividades como “muleta” para a volta da torcida é um erro. Não se justifica um com o outro, aponta-se um problema e evidencia-se uma solução. Utilizar uma falha para validar um pedido é ingenuidade, para dizer o mínimo.

Acho que a Arena vai ser um foco de contaminação? Não, não acho. Mas há uma questão em cheque que envolve sensibilidade. De um lado, a sensibilidade de entender o contexto e a necessidade da torcida, de outro a sensibilidade de liberar um evento – mais um – enquanto os casos continuam se multiplicando.

Lidamos com uma situação delicada, em que interesses diversos, necessidades diversas e realidades diversas precisam ter peso. Porém, uma portaria que sequer menciona uma matriz utilizada há 18 meses para balizar ações é, no mínimo, questionável.

Fato é que o JEC tem pouco mais de uma semana para se adequar e pensar em todo o protocolo, acolhimento, cumprimento de medidas e logística com um problema a mais: continua sem a arquibancada coberta. E este é um outro assunto que também mostra a falta de cuidado do poder público com seu próprio patrimônio.

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