A democracia não é uma foto

Editorial de O Estado de S. Paulo

O presidente Jair Bolsonaro queria uma foto no dia 7 de setembro. Sua expectativa era de que uma imagem pudesse contradizer as pesquisas de opinião, que vêm constatando o crescimento da rejeição e da desaprovação de seu governo. Bolsonaro obteve a foto com seus apoiadores na Avenida Paulista, mas a indesmentível realidade permanece. O presidente nunca teve tão pouco apoio popular e, principalmente, continua a negligenciar os gravíssimos problemas do país.

Já as manifestações do domingo passado talvez tenham frustrado quem queria obter com elas uma foto da oposição a Jair Bolsonaro. A rejeição aos abusos, negacionismos e irresponsabilidades do governo federal é inequivocamente maior do que a imagem obtida com os eventos do dia 12 de setembro. De toda forma, o que ocorreu no último domingo revela dois importantes fatos para o futuro da democracia brasileira.

Houve uma inédita reunião de forças políticas, bastante divergentes entre si, em torno de uma causa comum. Deixando de lado evidentes diferenças ideológicas, lideranças da sociedade se uniram em defesa da democracia. Um mesmo palanque recebeu pessoas muito diferentes, que estavam ali por um único motivo: expressar sua insatisfação com o autoritarismo de Jair Bolsonaro.

Se o número de manifestantes pode dar margem a que bolsonaristas desdenhem dos atos de 12 de setembro, a reunião inédita na história recente do país de pessoas com propostas políticas tão diferentes revela uma novidade que não convém desprezar. A comparação meramente quantitativa entre os eventos de terça-feira e de domingo não é apenas injusta pela disparidade de recursos empregados e pela diferença entre o apoio a um político e a defesa de uma causa cívica. Ela é incapaz de captar a dimensão social e política do que ocorreu no domingo passado: um efetivo pluralismo de ideias e propostas em torno de uma causa comum.

O segundo fato, inegável e explícito, é que o PT não está interessado na defesa da democracia. Sua percepção de democracia é uma só: Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao poder. Nesse sentido, ao PT não interessa o impeachment de Jair Bolsonaro, tampouco a união das forças políticas em torno de uma causa comum. A causa petista é a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, e ponto final.

É muito natural, portanto, que o PT não tenha participado das manifestações de 12 de setembro. O cenário ideal para Lula – que nada tem a ver com o cenário ideal para o país – não é apenas que Jair Bolsonaro seja um candidato expressivo nas eleições presidenciais de 2022, mas que o bolsonarismo esteja no segundo turno.

A presença de Lula nas eleições de 2022 é fundamental para Jair Bolsonaro. Sem ter nada a mostrar sobre o que fez ao longo do governo, Jair Bolsonaro, com o líder petista na disputa, poderá levantar os fantasmas de sempre: a ameaça comunista, a perversão dos valores tradicionais, o aparelhamento das estatais, a corrupção. Ainda que critique o Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro sabe que tem muito a agradecer à Corte por ter suspendido os efeitos da Lei da Ficha Limpa sobre Lula.

Da mesma forma, ainda que critique Bolsonaro, Lula tem muito a agradecer pelas manifestações do 7 de Setembro. O fantasma do bolsonarismo – o medo de mais quatro anos de irresponsabilidade, confusão e negacionismo no Executivo federal – é por ora o caminho mais fácil para Lula voltar ao Palácio do Planalto. Assim, Lula não terá de enfrentar os temas que expõem sem disfarce a natureza do lulopetismo: os escândalos de corrupção, a crise social e econômica causada por Dilma Rousseff, a ausência de propostas responsáveis para o país.

As manifestações de 12 de setembro podem ter frustrado quem contava com um resultado imediato, pois o caminho da democracia e da responsabilidade com o bem comum é longo, repleto de percalços, dificuldades e necessários aprendizados. Mas há uma notícia especialmente relevante. Esse caminho não está deserto. Pessoas de diferentes correntes ideológicas decidiram trilhá-lo e estão convidando outros a trilharem também.

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