Marcos de óbitos por coronavírus são divulgados com 10 mil mortes de atraso

Cemitério Parque Tarumã, em Manaus - Bruno Kelly

Cemitério Parque Tarumã, em Manaus Imagem: Bruno Kelly

O Brasil chegou às 70 mil mortes por covid-19 notificadas Ministério da Saúde no dia 10 de julho. Este marco, no entanto, pode ter sido atingido muitos dias antes. A causa é a diferença entre a data em que a morte aconteceu e o dia em que ela foi anunciada oficialmente.

Ao comparar dados dos registros de ocorrências das mortes com as notificações feitas pelo governo, o UOL descobriu que os marcos de óbitos estão sendo divulgados pelo governo com pelo menos 10 mil mortes de atraso.

Por exemplo, em 21 de maio, quando o ministério anunciou que o Brasil tinha 20 mil óbitos por covid-19, na prática, o país já tinha chegado aos 30 mil mortos pelo novo coronavírus.

O motivo? Demora para inclusão no sistema nacional, atraso de resultados laboratoriais confirmando coronavírus, falta de equipamentos, entre outros.

Nos casos mais extremos, a janela entre a data em que o óbito ocorreu e a notificação pode se aproximar de quatro meses.

Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que o sistema de notificações adotado pela pasta é o mais adequado dentro das possibilidades atuais, mas destacam que a subnotificação atrapalha no combate à doença e que o governo poderia coordenar melhor a organização destes dados.

Divergência entre ocorrência e notificação

Todos os marcos divulgados pelo Ministério da Saúde apresentam atraso de cerca de uma semana. Na maioria deles, o número real de mortos por covid-19 já estava ao menos 10 mil à frente.

Segundo o último boletim epidemiológico, divulgado na última quarta (15) com dados consolidados na segunda (13), o Brasil chegou a 10 mil mortes pela covid-19, no mínimo, em 27 de abril.

Este marco, no entanto, só foi notificado pelo ministério em 9 de maio, doze dias depois. Nesta data, o país já estava no patamar de 20 mil mortes havia pelo menos um dia. Isso só foi confirmado, no entanto, em 21 de maio, 13 dias depois.

Ao analisar os relatórios, percebe-se que os números de óbitos por ocorrência param de crescer substancialmente depois de dois meses. Ou seja, ainda é possível que haja um aumento relevante nos números de maio, em especial na segunda quinzena.

Em alguns casos, porém, a confirmação de um óbito por covid-19 chega a acontecer de três a quatro meses depois da morte. O último boletim epidemiológico, por exemplo, mostrou dois novos óbitos ocorridos cerca de três meses e meio atrás, no dia 25 de março.

Problemas de logística e estrutura explicam os atrasos

A principal causa disso, segundo o Ministério da Saúde, se dá por problemas de logística e de estrutura nacionalmente. Embora o SUS (Sistema Único de Saúde) seja todo conectado, por diversos motivos os dados de prefeituras e governos estaduais demoram para chegar até Brasília, onde são compilados.

“O aumento no número de casos, devido à pandemia, à falta de recursos humanos e infraestrutura (internet, computador, etc.) nos estados e municípios podem sobrecarregar e dificultar a oportunidade na digitação dos casos e óbitos pelas vigilâncias epidemiológicas”, informa o ministério. “É importante ressaltar que estas fichas já estão preenchidas nas unidades de saúde, só não inseridas no sistema de informação.”

Sistema frágil

“O sistema de dados, de informação e testagem no Brasil já é muito fragilizado, sem recursos e materiais necessários, e piorou com a covid. Os laboratórios estão sobrecarregados e os estados têm feito o melhor que podem, mas a demanda está muito alta”, avalia a epidemiologista Dandara Ramos, professora do ISC-UFBA (Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia).

Outro ponto a ser levado em consideração é o atraso para o resultado da confirmação laboratorial. “Vamos dizer que a pessoa dê entrada no hospital com sintomas graves de uma síndrome gripal. Os médicos suspeitam de covid-19, vão coletar material. À noite, ele morre. Na hora que vai preencher o atestado, ainda não vai ter a causa, vai ser suspeita de covid. Aí não entra no boletim do dia, vai entrar depois se o exame confirmar”, exemplifica Benilton de Sá Carvalho, professor de Estatística, Bioinformática e Epidemiologia da Unicamp (Universidade de Campinas).

Estados sobrecarregados

A demora pode ser ainda maior em estados que tiveram sobrecargas em seus sistemas de saúde e acabaram ficando com exames pendentes. Em Pernambuco, por exemplo, o boletim da última quinta (16) apontou que, entre as 67 mortes registradas em 24 horas, uma ocorreu em 24 de abril —quase três meses antes.

Uma das explicações para esse atraso pode estar no período inicial da pandemia, quando havia uma grande deficiência de insumos para a testagem. “Nós não chegamos a parar de fazer exames aqui, mas algumas vezes ficamos bem perto disso. Houve um problema imenso com a chegada dos insumos”, conta Felipe Naveca, pesquisador na área de virologia da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia.

“Nós tiramos recursos para comprar, mas os fornecedores não tinham para vender, por conta da alta demanda, em especial fora do país. Como grande parte desses insumos é importado, seja como produto acabado, seja como matéria-prima, isso foi um problema sério”, afirma Naveca.

Mesmo em São Paulo, estado que não registrou colapso do sistema público, a testagem ficou sobrecarregada. “Houve um momento em que estava ocorrendo tantos óbitos e tantos casos que o governo falou para, primeiro, testar as mortes, que são mais importantes para entender o que estava acontecendo. O sistema não estava dando conta da demanda”, lembra Paulo Lotufo, professor de Epidemiologia da USP (Universidade de São Paulo).

Não é só com covid nem só no Brasil

Este cenário de atraso e problema com logística para controle da informação não é exclusivo da covid-19. Segundo Ramos, da UFBA, em geral, trabalhar com doenças infecciosas é “desafiador” no Brasil.

“Elas estão muito presas à testagem, e aqui esta é uma questão muito complexa. Até hoje a gente não tem um teste totalmente conclusivo para dengue, zika, chikungunya. Doenças que estão aí, como epidemia, há um tempo. Agora, imagina a covid, que acabou de surgir como demanda?”, questiona.

Já Lotufo afirma que, embora pudesse haver mais organização por parte do governo federal, no caso do covid, este atraso não é exclusividade do Brasil. “A gente viu isso em países da Europa, está acontecendo nos Estados Unidos. O sistema de [divulgação por] notificação não é o ideal, perfeito, mas é o possível”, afirma o professor.

Não tem como saber número atual

Na última sexta-feira (17), o Ministério da Saúde notificou um total de 77.851 mortes em decorrência da covid-19 no Brasil. Isso quer dizer que, hoje, o número real deve estar acima dos 87 mil? Impossível saber.

Segundo os especialistas, dados os problemas relatados acima e a pouca testagem empregada no Brasil nacionalmente, não é possível dizer o número em tempo real. “Quantos morreram ou morrerão hoje, não dá para saber, é impossível. Avaliar a média móvel de óbitos notificados, uma estratégia antiga, é o melhor que podemos fazer”, afirma Lotufo.

“A grande maioria dos países faz esse acompanhando por data de notificação. Poucos lugares, principalmente os menores, conseguem olhar por data de óbito. Mas há uma questão metodológica dentro da comunidade científica: o óbito por data de notificação não muda. Se foram 300 naquele dia, serão 300 para sempre. E o número de óbitos ocorridos vai mudando de pouquinho e pouquinho”, concorda Carvalho, da Unicamp.

Atraso atrapalha combate à doença

O atraso pode atrapalhar no planejamento do combate à doença. Segundo Carvalho, com a demora, é necessário, em alguns momentos, voltar nos dados para fazer uma análise mais precisa de curva da doença.

“Você acaba tendo as previsões feitas naquela data podendo ser afetadas. Do ponto de vista metodológico, podemos precisar retroagir as análises. Algo que falta ainda no Brasil é um sistema oficial com todas as informações que você tinha lá em 14 de maio. Isso seria importante para o trabalho de análise e entender para ver o que tinha acontecido e o que de fato aconteceu”, aponta o professor da Unicamp.

O ministério da Saúde, por sua vez, diz que esta diferença não atrapalha no combate à doença, pois são usadas “diferentes fontes de informação”.

“Os estudos epidemiológicos já indicavam que o Brasil enfrentaria a fase mais crítica da pandemia durante os meses de junho, julho e agosto. Nesse sentido, os atuais índices estão dentro do esperado, seguindo a lógica de interiorização da epidemia ao longo do tempo, observando-se uma transição dos casos de covid-19 das cidades que fazem parte das regiões metropolitanas para as cidades do interior do país”, declarou o órgão em resposta ao UOL.

Ramos discorda. “Os estados e municípios tomam suas decisões baseadas em ocupação de leitos e números de casos e óbitos. Quando mais a notificação está distante do quadro real, mais difícil fica em estimar reabertura, fim do isolamento [social]. O governo federal deveria ter se responsabilizado por essa comunicação, mas não o fez”, critica a epidemiologista.

Com Agências

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